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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

É NATAL

Evangelho de Jesus Cristo segundo São João 5,33-36

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João:

Naquele tempo, Jesus disse aos judeus: Vós mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. Eu, porém, não dependo do testemunho de um ser humano. Mas falo assim para a vossa salvação. João era uma lâmpada que estava acesa e a brilhar, e vós com prazer vos alegrastes por um tempo com a sua luz. Mas eu tenho um testemunho maior que o de João; as obras que o Pai me concedeu realizar. As obras que eu faço dão testemunho de mim, mostrando que o Pai me enviou.
- Palavra da Salvação.
- Glória a Vós, Senhor.
Comentário ao Evangelho do dia feito por São Máximo de Turim
(? - c. 420), Bispo - Sermão 62

«Preparei uma lâmpada para o Meu Cristo» (Sl 132,17)

Na altura em que todo o universo se encontrava subjugado pelas trevas do diabo e o negrume do pecado reinava sobre o mundo, um novo sol, Cristo, Nosso Senhor, quis, nos últimos tempos e na escuridão da noite, espalhar a claridade dum novo dia. Antes de surgir esta luz, isto é, antes de que se manifestasse «o sol de justiça» (Ml 3,20), Deus anunciara já, pelos profetas: «Eu vos enviei todos os Meus profetas antes da luz» (Jr 7,25 [Vulgata]). Mais tarde, o próprio Cristo enviou os Seus raios, ou seja, os Apóstolos, a fazer brilhar a Sua luz e encher de Verdade a terra inteira, a fim de que ninguém se perdesse nas trevas. [...]
Nós, os homens, servimo-nos de lâmpadas para levar a cabo as nossas tarefas antes de o sol deste mundo nascer; ora, também o sol de Cristo teve uma lâmpada a preceder a Sua vinda, como diz o salmista: «Preparei uma lâmpada para o Meu Cristo» (Sl 132,17 [Vulgata]). O Senhor indica-nos quem é esta lâmpada, ao dizer, a respeito de João Baptista: «era uma lâmpada ardente e luminosa» (Jo 5,35). E o mesmo João diz de si próprio, como se fora o fraco clarão duma lanterna que se leva à nossa frente: «Mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não dou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há-de baptizar-vos no espírito Santo e no fogo» (Lc 3,16); ao mesmo tempo, percebendo que a sua luz devia desvanecer-se perante os raios desse sol, diz: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (Jo 3,30). Com efeito, assim como o clarão duma lanterna desaparece com a luz do sol, do mesmo modo o baptismo de arrependimento de João perde o valor com a chegada da graça de Cristo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

INTERCESSÃO DOS SANTOS

Dowgllazz Silva pergunta:

Porque os católicos rezam para santos alem de rezar para Deus ? muitos deles nem estão na bíblia, só foram criados pela mente humana...

Caro Dowgllaz:

Em nenhum lugar a Sagrada Escritura condena a veneração (coisa diferente de adoração, algo reservado somente a Deus) aos homens e mulheres de Deus, aliás, a Bíblia até incentiva a honra aos santos (santo não significa que seja santo como Deus, mas que é uma pessoa temente a Deus, que se salvou - no Novo Testamento vemos essa palavra muitas vezes empregada aos que se converteram).

Veja em segundo Reis 13, 20-21, o caso de Eliseu em que Deus cura através de suas relíquias (o que sempre acontece na Igreja de Jesus Cristo).


Em Eclesiástico 48,12, vemos a veneração do nome de Elias pelos judeus, um santo profeta de Deus:

"Quando Elias foi envolvido pelo turbilhão, Eliseu ficou repleto do espírito dele. Durante a vida, Eliseu não tremeu diante dos poderosos, e ninguém conseguiu dominá-lo. Nada era difícil demais para ele e, mesmo morto, ainda profetizou. Durante a vida realizou prodígios e, depois de morto, suas obras foram maravilhosas”.

No segundo livro dos Reis capítulo 2 vemos Eliseu utilizando uma relíquia de Elias:

"Então Elias pegou o manto, o enrolou e
bateu com ele na água. A água se dividiu em duas partes, de tal modo que os dois passaram o rio sem molhar os pés. [...] Pegou o manto de Elias, que havia caído, e voltou para a margem do Jordão. Segurando o manto de Elias, bateu com ele na água, dizendo: “Onde está Javé, o Deus de Elias?”Bateu na água, que se dividiu em duas partes. E ele atravessou o rio.”


Usava-se as relíquias de Paulo para realizar milagres:

"Deus fazia milagres extraordinários por INTERMÉDIO de Paulo, a tal ponto que bastava aplicar aos doentes os lenços e as roupas que tinham estado em contato com o seu corpo, para que as doenças e os espíritos malignos os deixassem.” (Atos 19,1).

Por intermédio de são Paulo, por sua intercessão Deus realizava vários e vários milagres.
Em Atos 5,12-13 vemos o povo venerando e honrando os Apóstolos:

“Muitos sinais e prodígios eram realizados entre o povo pelas mãos dos apóstolos. Todos os fiéis se congregavam, bem unidos, no Pórtico de Salomão. Nenhum dos outros ousava juntar-se a eles, mas o povo estimava-os muito.”

Vemos o povo de Israel honrando e venerando o patriarca Abraão
(São João 8 e Gálatas 3, 7).
Paulo considera Estevão mártir santo (cf. At 22, 20).

Deus mesmo honra seus santos, os ama e lhes aceita os pedidos, mesmo em vida, imagine depois de estarem com o Senhor!
Veja os mortos santos (= salvos) intercendendo diante de Deus:

“E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?”
(Apocalipse 6).

E a Sagrada Escritura é clara a respeito da intercessão dos salvos (isto é, dos santos):

“E veio um outro anjo que se colocou perto do altar, com um turíbulo de ouro. Ele recebeu uma grande quantidade de incenso, para oferecê-lo com as orações de todos os santos, no altar de ouro que está diante do trono. E da mão do anjo subia até Deus a fumaça do incenso com as orações dos santos.” (Apocalipse 8, 3-4)

A Igreja, desde os primórdios, e vê-se isso nos escritos do século I e II, que acreditava na intercessão dos mortos que foram salvos. Pelos méritos de Cristo, essas pessoas que foram salvas e já estão junto com o Senhor após sua morte, podem interceder pelos que ainda estão vivos.
A Igreja crê na Comunhão dos santos, isto é, a Igreja não é mutilada quando os seus fiéis morrem, mas a Comunhão da oração e dos seus dons se mantém.
A Igreja na eternidade e a Igreja na Terra é a mesma e única Igreja de Cristo, essa Comunhão não se acaba após a morte, muito pelo contrário, se intensifica. Os mortos estão vivos em Cristo e mantém contato através das orações e das bênçãos que recebem através de suas orações.

“E ele (Deus) nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez sentar nos céus, em virtude de nossa união com Cristo Jesus!” (Efésios 2, 6)

Por estarem os salvos (= santos) nos Céus, como se viu no Apocalipse 6 e 8, estão mais intimamente ligados ao Senhor, e pelos méritos de Cristo Jesus, conseguem de Deus graças para os que estão aqui neste mundo em busca de Deus.
E podemos pedir a eles graças, curas e milagres. Por que não? Não existe uma só proibição bíblica ou na Tradição da Igreja que nos motive a não pedir a um salvo no Céu, pela sua oração, alguma graça específica. Se em vida podemos pedir a intercessão dos que estão no caminho de Deus, por que não podemos pedir a eles depois que já estão nos Céus, assentados com Cristo à direita de Deus?
E como eles saberiam de nossas orações se não são oniscientes? Na onisciência de Deus, pela revelação de Deus a eles, os santos assistem os caminhos dos homens e da Igreja na Terra, veja em Apocalipse 6 que os santos mortos intercedem para que Deus faça justiça por aqueles que no mundo são perseguidos e até mortos pelo Reino de Deus.
Nós vemos também isto na parábola do Lázaro e do rico em que o rico assiste, mesmo depois de morto, e ainda estando no inferno, os seus parentes que ainda não se converteram dos seus caminhos errados e até intercede por eles, mas sem sucesso porque ele não está salvo (São Lucas 16). Imagine os santos que estão em completa comunhão com Deus!
Vemos isto até pela Palavra de Nosso Deus Jesus Cristo. No evangelho de S. Mateus (22, 30), Jesus Cristo ensina que os "santos são como os anjos de Deus no céu". Zacarias diz: "que o anjo intercedeu por Jerusalém ao Senhor dos exércitos" (1, 12 -13).

No Livro de Jeremias vemos:

"E o Senhor disse-me: ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, a minha alma não se inclinaria para este povo; tira-os da minha face e retirem-se."
(Jeremias 15, 1 ss).

No tempo de Jeremias, estavam mortos Moisés e Samuel, mas sua possível intercessão é confirmada pelas palavras do próprio Deus: "ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim...", quer dizer que eles poderiam se colocar diante de Deus para pedir clemência para com aquele povo. Em outras palavras, Deus deixa clara a possibilidade da intercessão após a morte.

Algumas vezes nem recebemos algumas graças porque não as pedimos pela intercessão de nossos irmãos, mostrando assim nossa humildade em recorrer a outra pessoa mais próxima da Majestade Divina de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Vemos no Livro de Jó:

"Tomai sete touros... e ide a meu servo Job... o meu servo Job... orará por vós e admitirei propício a sua face" (Jo 42, 8).

Deus somente “reconciliou” Consigo os amigos de Jó após a intercessão de seu servo Jó. Não adiantava eles orarem por eles mesmos.
No capítulo 12 de Números vemos que Miriam e Arão, irmãos de Moisés, foram punidos por Deus porque falaram mal de Moisés. Mas, por suas próprias orações não puderam ser curadoss de suas punições, e só foram curados mediante a intercessão de Moisés.
No capítulo 15 do Evangelho de São Mateus vemos que o Senhor Jesus não ouve as orações da Cananeia, porém, quando os Apóstolos intercedem por ela, Ele se digna ouvi-la. Eis aí o poder de intercessão da Igreja e dos santos (=salvos).

Jesus é o Sumo Sacerdote diante do Pai (isto é, o Grande Intercessor, o Grande Mediador), mas em Cristo também somos sacerdotes (sacerdote é aquele que intercede, oferece sacrifícios e media), veja:

‘‘Aquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados no seu sangue, e que fez de nós um reino de sacerdotes para Deus e Seu Pai.” (Apocalipse 1,9)

‘‘Cantavam um cântico novo, dizendo: Tu és digno de receber o livro e de abrir-lhes os selos, porque foste imolado , e resgataste para Deus, ao preço de Seu Sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça; e deles fizeste para nosso Deus um reino de sacerdotes, que reinam sobre a terra’‘
(Apocalipse 5,9-10)

“Vos tornais os materiais desse edifício espiritual, um sacerdócio santo para oferecer vítimas espirituais a Deus, por Jesus Cristo.”
 (1 Pedro 2,4-5)

Então interceder a Deus não é errado, e pode-se pedir oração aos santos que habitam os céus para que orem por nós ao Senhor, por meio dos méritos infinitos de nosso Senhor Jesus Cristo, para nossas necessidades espirituais e humanas. Eles as ouvem pelo poder de Deus e podem interceder por nós diante do Trono do Altíssimo, porque eles O estão contemplando face a face.

Espero ter sido claro a respeito dessa Verdade bíblica.

A Jesus a glória e a nós a Misericórdia!

tt

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A VERDADEIRA RELIGIÃO É FUNDADA PELO PRÓPRIO DEUS

Uma questão de Dowgllaz Silva:

“Olá, eu gostaria de saber se é pecado não ter religião  ? não gosto de religiões pois elas se parecem time de futebol, cada uma se diz melhor que a outra, e eu não quero cometer o erro de estar numa religião errada !

Também quer saber o porque Deus nos deu a escolha do certo e o errado ? porque ele não criou somente o certo ? Me parece que ele quer brincar com a gente." 

Caro Dowgllaz:


O significado real da palavra Religião é religar.
 Durante todos os tempos, a raça humana sente-se intimamente, intrinsecamente motivada a reconquistar a comunhão com o divino, como que religando o homem ao divino. Nos povos primitivos eram feitos até mesmo sacrifícios de animais e de humanos para tentar contatar o deuses. Mesmo entre os povos politeístas (adoração de vários deuses) isso sempre existiu, e isso se tornou ainda mais evidente no monoteísmo judaico (adoração de um único Deus). A issa busca por comunhão com o Divino chamamos de Religião.
O homem, em todos os tempos, especialmente no monoteísmo, sentiu-se longe de Deus, desconectado e por todo o tempo fazia o que estava em seu alcance para se religar com Deus.
No entanto, surgiu um homem chamado Jesus, nascido em Belém, morador da pequena vila de Nazaré, cujos pais são Maria e José, e Ele se proclamava o Messias esperado por Israel, e um Messias que era Deus feito homem, que por sua morte e ressurreição religaria ao Deus eterno todos os que O seguissem. Assim surgiu o Cristianismo.
Em todas as demais religiões o homem faz um esforça para alcançar Deus, no Cristianismo verdadeiro Deus vem em busca do homem. Nunca o homem, politeísta ou monoteísta, imaginou isso algum dia. Deus em busca do homem, Deus correndo atrás do prejuízo que o homem causou, Deus se religando ao homem.
Este homem Jesus, sendo Deus em busca do homem perdido e desligado, instituiu uma só Religião-Igreja, tendo Pedro (um de seus seguidores mais próximos) como seu Sucessor e Representante (veja a explicação melhor sobre isto aqui em meu Blog no link http://jesusecatolico.blogspot.com/2011/06/os-protestantes-e-igreja-de-jesus.html).
Claro que apesar de Ele ter instituído uma só Religião-Igreja, aqueles que não aceitaram essa ideia, durante os tempos seguintes, resolveram fazer um Cristianismo à sua maneira: daí surgiram outras denominações que seguem pelo menos parte (parte, às vezes adulterada) do que ensinou nosso Senhor Jesus Cristo.
Você me pergunta se é pecado não ter Religião. Posso te dizer que você tem uma Religião, ao seu modo, mas tem. É inerente ao ser humano, mesmo ao ateu, ter uma Religião. O ateísmo em si é um Religião, um religar ao divino, mesmo que o divino seja o materialismo, um ídolo político ou artista, ou a própria pessoa. O fator é seguir ou não a verdadeira Religião.
O pecado seria conhecer a verdadeira Religião e não aderir a ela. E qual seria essa verdadeira Religião? Usando a inteligência, através dos estudos é fácil encontrá-La. Se formos ver, historicamente e antropologicamente, a verdadeira, única, imutável e inalterável Religião-Igreja é a fundada pelo Criador que se encarnou e que a institui sobre Pedro e a perpetuou pelos Sucessores de Pedro.
Existem religiões e a Religião, e para não ferir o liberdade humana temos que escolher com amor, inteligência e fé. Deus criou somente o certo; o errado é como a sombra da do certo. Onde existe Luz (o certo, a Verdade), há também as sombras. Deus aponta o certo, a Verdade – é só seguirmos o que Ele aponta. Não é fácil, porque no mundo existe o pluralismo de ideias, e portanto o pluralismo de religiões. Contudo, se estivermos realmente convictos de que queremos encontrar Deus e a Verdade, sem dúvida O encontraremos, porque Deus é a Verdade (São João 14, 6) e Ele não mente e nem engana. A ilusão e a confusão são provocadas por aqueles que não estão com Deus e não O seguem verdadeiramente, mesmo que pareça que eles O sigam.
Também já tive essa mesma dúvida que você teve, anos atrás. Hoje, mesmo estando na contínua busca pela Verdade íntegra e total, encontrei e continuo a encontrar a verdadeira Religião na Igreja fundada por Jesus Cristo sobre Pedro e continuada por seus Sucessores. E quanto mais entendo a Verdade infinita e imutável mais vejo essa mesma Verdade na Igreja, não somente no Cristianismo em geral, mas na única Igreja fundada e instituída por Jesus, o verdadeiro Messias esperado por Israel até os dias de hoje.
E apesar de a Igreja saber que é a verdadeira, historicamente e biblicamente, você nunca vai ouvir o Vaticano e o Papa dizerem que é a melhor das religiões, muito pelo contrário, você tem visto nos últimos tempos a conversa e o diálogo fraterno da Igreja com outras religiões, mesmo a Igreja não compactuando com seus ensinamentos.
Espero ter respondido parte de sua questão. Logo terá outro texto a respeito de outra pergunta que me fez.
Peço que, para terminar, leia mais sobre a Igreja aqui neste link a seguir: http://jesusecatolico.blogspot.com/search/label/IGREJA

Que Deus abençoe você em sua busca pela Verdade, Verdade esta que se encarnou no seio da Virgem e habitou entre nós (São João capítulo I).

tt

terça-feira, 5 de julho de 2011

JESUS CRISTO: O ÚNICO MEDIADOR ENTRE DEUS E OS HOMENS

A verdade dogmática que resulta mais objetiva do fato de o Verbo ter-se encarnado e ter-se feito verdadeiro homem, sem deixar de ser verdadeiramente Deus, é a da mediação única de Jesus Cristo entre Deus e os homens.

São Paulo a afirma numa fórmula explicitamente dogmática: “Há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo homem, que se deu em resgate por todos.”  (1 Tim 2, 5 e 6).


À luz desta afirmação, poderíamos concluir: Jesus é o caminho de Deus e para Deus.


Talvez convenha nos formulemos uma pergunta muito simples, que por tão simples, nunca nos formulamos: Que é mesmo um “mediador”?


Santo Tomás de Aquino, em a
Summa Theologiae, faz uma análise muito arguta da mediação de Jesus Cristo e a fundamenta exatamente neste pressuposto do que vem a ser um “mediador”.

Ele explica: “
mediatoris officium proprie est conjungere eos  inter quos est mediator: nam extrema uniuntur in medio.”  Traduzindo: “função do mediador propriamente é unir aqueles entre os quais ele é mediador, pois os extremos se unem no meio.” (Summa Theologiae, P.III, Q.XXVI, Art. 1)  É esta  a função de Cristo, que está entre Deus e a humanidade.  

Este, portanto, que une o Criador infinito com a humanidade finita,  que estabelece relações, que implora e consegue favores de Deus, leva os nossos rogos e precisões de pecadores Àquele que é a santidade em si mesmo, – este é o sumo e único Mediador.


E diz mais o grande Santo Tomás: “
Só Cristo é o perfeito mediador entre Deus e os homens, porquanto através de sua morte reconciliou o gênero humano com Deus. Daí procede que quando o Apóstolo disse:  mediador entre Deus e os homens é o homem Cristo Jesus, logo acrescentou (v.6): Que se deu a si mesmo em redenção para todos.” (Summa Theologiae, na conclusão do art.1, citado acima).

Importante ponderar ainda que, sendo Deus infinitamente superior a todos, e nós a ele infinitamente inferiores, necessário se tornava que o mediador tivesse algo de comum com Deus e com os homens. Isto se realizou perfeitamente em Cristo, que, sendo Deus, encarnou-se, tornando-se perfeitamente homem.


Lembremos o texto da carta de Paulo aos Filipenses: “Sendo ele o Verbo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhado-se aos homens”. (Fil 2, 5-8).


Esta expressão “assemelhando-se aos homens” deve ser explicada. Na verdade, o Verbo de Deus não somente se assemelhou aos homens. Sim, assemelhou-se também. Mas, em verdade, fez-se homem, tornou-se homem.


Cristo mediador tem, em seu ser, a perfectibilidade da mediação, pois ele partilha de ambas as naturezas: a de Deus, pois é seu Verbo e seu Filho, e a dos homens, pois é homem perfeito e nosso irmão maior – “o primogênito entre muitos irmãos”, como diz Paulo na Carta aos Romanos (Ro 8, 29).


Estamos aqui diante do ser mediador de Cristo, aquilo que os teólogos chamam mediação
quoad esse. Pois a mediação se entende quanto ao esse (ser) e quanto ao operari (agir, fazer). Jesus Cristo é mediador pelo seu próprio “ser”: Deus-Homem. Mas o foi também pelo que operou: “a reconciliação de tudo em si mesmo pelo sangue da cruz” (Cl 1, 20)

Afirmar que Jesus é Mediador é de uma riqueza incomparável na ordem teológica e humana. Significa que o céu e a terra se encontraram em Jesus Cristo, que Deus e o homem se unem no perfeito sentido religioso, da palavra latina
religare.

De
religare é que procede religio,  em português religião. Religião exprime todo o conjunto de práticas pelas quais os homens buscam ligar-se a Deus.

Religare:
ligar de novo os que estavam separados. A obra mais excelente criada por Deus, o homem, “imagem e semelhança de Deus”, não podia  mais voltar a Deus, não podia por si unir-se a ele. O pecado original levantara um muro de separação entre a humanidade criada e Deus Criador. A Encarnação rompeu este muro, refazendo a união entre ambos. Aqui está o esse, o ser da mediação de Jesus, Verbo Encarnado.

Em Jesus Cristo, Homem e Deus, a humanidade liga-se de novo a Deus. Poderíamos dizer: Jesus é o caminho de Deus e para Deus. “Eu sou o caminho a verdade e a vida, ninguém chega ao Pai senão por mim”. (Jo 14, 6).


E mais ainda, todos os homens se unem entre si por causa de Cristo e em Cristo. A mediação de Jesus não é só entre Deus e a humanidade; é também entre povos e nações e facções humanas, entre gentios pagãos e o povo eleito de Deus que já existia. A mediação de Cristo é a paz no sentido mais radical.

Significativo, a propósito, o texto de São Paulo aos Efésios que está em Ef 2, 11-19:

“Já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre os apóstolos e os profetas como fundamentos, sendo o próprio Cristo a pedra angular. É nele que todo o edifício, harmonicamente disposto, se levanta para ser um templo santo no Senhor. É nele que também vós outros entrais em conjunto, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna  habitação de Deus.”


Lendo-se este texto e meditando-o, compreendemos que Paulo acena para a
Igreja de Cristo, “edificada sobre os apóstolos”, “templo santo do Senhor”, “que se torna habitação de Deus”. É aí que se religam Deus e a humanidade. É este o templo da verdadeira Religião (de religare) à que nos referimos acima.

Temos, assim, em Jesus duplo sentido da religião que precede de
religare – restabelecer a união: 1) ligados de novo, os homens a Deus; 2) ligados de novo os homens entre si, sem inimizades, por causa de Cristo.

Religião é união com Deus. Religião é amizade, afeto fraterno entre os que estão em Cristo. Os que crêem em Cristo são chamados a professar e criar a religião entre todos. É a paz como fruto da fé.


A paz está no centro dos anseios humanos, e sobretudo dos anseios de Deus. Ela começou quando Cristo nasceu, e, por isso, os anjos cantaram: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens amados por Deus”. (Lc 2, 14). Ele mesmo é a nossa Paz. (Ef 2, 14). Os textos proféticos de Isaias falam de uma paz messiânica inimaginável. Uma paz que certamente não se realizará. (Cf Is. 19, 6-10). Este texto é um símbolo, uma alegoria do que os homens devem criar.


A paz entre os homens nascerá do perdão. Ou nunca se dará. Eis a advertência de Jesus: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará.” (Mt 6,14)


É admirável que Jesus não só curou tantos enfermos, mas que também lhes perdoou os pecados. E assim lhes restituiu a paz. Fazia parte de sua atividade messiânica e mediadora. Significativo, a propósito, o que está no episódio da cura do paralítico.(Mt 9, 2-9)

Perdoar pecados é mais do que curar fisicamente as pessoas, porque é curá-las no seu interior, e não só por fora. É o ponto mais alto e mais sublime da mediação de Jesus quanto a seu operar.


Por isso, também, ele deixou este poder de “perdoar pecados” aos ministros de sua Igreja. “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio...Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles  a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.”(Jo 20, 21-24)


Bendigamos para sempre ao nosso divino Mediador, que estendeu até nós a alegria do perdão de nossos pecados. O perdão é a fonte da paz.

Por: DOM ANTÔNIO AFFONSO DE MIRANDA - SDN
BISPO DE TAUBATÉ - SP